A História do Pedro

Lembro-me quando ainda estava em Lisboa a poucas horas de distância do meu voo para Bogotá, numa tradição um pouco portuguesa, de fazer as malas à ultima da hora. Nessa altura, ainda rodeado de amigos e família que me iam acompanhar até ao aeroporto e com a preocupação de não me esquecer de nada (o que obviamente aconteceu) a minha mente estava ocupada com praticamente tudo menos expectativas para a Colômbia.

Apesar de já ter definido alguns objectivos pessoais quando me candidatei ao projecto “Shape Colombia”, a minha ideia era ir para este país sul-americano com uma mente aberta capaz de captar as características verdadeiras de um país que ainda não conseguiu contornal totalmente uma imagem associada ao Narcotrafio que perdura desde os anos 70.

A verdade é que convido as pessoas que formam esta imagem depriciativa do país a virem comprovar com os seus próprios olhos que o lema turístico da Colômbia “o único risco é querer ficar” se torna uma realidade.

Inicialmente a chegada à cidade chocou-me, não pelo que via mas sim pelo que ouvia. Ricardo, o rapaz que fazia parte do projecto e responsável por me ir buscar ao aeroporto rapidamente me começou a avisar de várias zonas onde não devia caminhar sozinho e 1001 truques para evitar ser assaltado. Claro que esta não foi a chegada mais agradável mas com o tempo percebi que há uma necessidade grande dos bogotanos em criar perigo onde não existe (talvez devido ao seu passado). Já com 2 meses de experiência na cidade, nunca sofri uma tentativa de assalto e sempre caminhei em várias zonas da cidade à noite sem nunca ter problemas.

Da mesma forma, os bogotanos recebem bastante bem os turistas que ainda despertam uma certa curiosidade numa cidade que está começar a potencializar a chegada de estrangeiros.  Aqui descobri um choque cultural – as pessoas de Bogotá são hospitaleiras para com os turistas mas não para com as pessoas da mesma cidade e isto pode ver-se em exemplos pequenos no dia-a-dia: o trânsito de 24h provocado por condutores que não respeitam qualquer prioridade, a necessidade constante das pessoas arranjarem formas de ultrapassar outras pessoas em filas ou mesmo a senhora de fotocópias da tua escola que não te dá papel “porque está no facebook”.  Bogotá é sem duvida uma cidade caótica, mas no final é essa mesma energia que a torna especial.

A forma de trabalhar também é um bocado diferente, se consideramos os Portugueses relaxados aqui é outro nível. Estou a dar aulas de inglês trabalhando com uma professora assistente que gosta de criar as aulas sempre quase em cima da hora e com muita improvisação, algo que não era de todo de desconfortável para mim, mas que sem duvida já me ajudou bastante em termos de desenvolvimento pessoal e profissional. Pode não parecer, mas é bastante exigente criar em poucos momentos uma aula criativa para crianças de 8/9 anos e assim que essa aula termina criar, novamente numa questão de minutos,uma nova aula adaptada a adolescentes de 16/17 anos.

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Finalmente, tem também sido uma óptima experiência para conhecer-me um pouco melhor: lidando com várias situações de trabalho que requerem flexibilidade e “desenrascanço” português aprendi a confiar mais nas minhas capacidades de reagir com calma em diferentes ambientes. Ao mesmo tempo o positivismo colombiano começa cada vez mais a entranhar-se na minha personalidade naturalmente céptica, o que era exactamente um dos objectivos pessoais que tinha definido para mim, por isso… obrigado desde já Colômbia!

Pedro Cortez

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