Um verão inesperado na Roménia

Quando conheceu a AIESEC, o Rui não pesou duas vezes sobre o que ia acontecer a seguir: um verão especial, com voluntariado à mistura!

 

Olá Rui, podes contar-nos um bocado sobre a tua experiência? Para que país foste, qual o projecto?

R: A decisão de fazer uma experiência com a AIESEC foi muito espontânea. Estava a acabar o meu 3º e último ano de licenciatura na faculdade e decidi que queria fazer alguma coisa especial naquele Verão. Sentia que era de certa forma o fechar de um ciclo. Portanto, quando acabei os meus exames (não façam isto, planeiem com antecedência), decidi que queria fazer voluntariado no estrangeiro. Na verdade queria ter ido para o sudeste asiático, mas, como só tive cerca de 15 dias para planear tudo, não tive tempo para tratar dos vistos e vacinas. As minhas escolhas resumiam-se, assim, à Europa.

Acabei por escolher a Roménia, numa oportunidade que tinha como objetivo ensinar Inglês a crianças. Não tinha expectativas, pois conhecia muito pouco a AIESEC (e a Roménia ainda menos). Talvez seja em parte devido a isso que gostei tanto da minha experiência.

Como foi viver num país diferente? Sentiste choque cultural?

R: Claro que sim, acho que acabamos sempre por sentir um choque cultural quando deixamos o nosso país, tudo depende da forma como lidamos com ele. Já tinha vivido no estrangeiro durante alguns meses, quando fiz o meu Erasmus na Bélgica, mas na Roménia foi diferente.

Para começar, estava num dormitório com todos os outros voluntários e partilhava quarto com um chinês. Asseguro-vos que nunca experimentei tanta comida estranha como naquelas semanas. O Sean (o chinês com quem estava a partilhar quarto) fazia questão de me oferecer sempre uma parte dos snacks chineses que tinha trazido: desde tofu empacotado, a fatias de peixe seco, a doces com sabor a bacon…

Outro aspeto muito interessante foi a nível da religião. Durante as nossas primeiras semanas lá, celebrámos o Eid, pois tínhamos voluntários do Paquistão, Tunísia, Algeria e Egipto, que seguiam o Islão. O Eid é uma ocasião muito especial para eles (é como se fosse o nosso Natal), é a altura onde as famílias se reúnem e celebram com muita comida e festa. Nesse dia, cada um de nós cozinhou um prato diferente de cada país (sendo o português, um orgulhoso arroz doce aprovado por toda a gente).

E depois a Roménia em si. É um país muito subvalorizado. As pessoas são muito atenciosas, a comida muito boa e o país em si tem sítios que vale mesmo a pena visitar. Desde as montanhas no centro do país, aos castelos impressionantes (sendo o castelo do Drácula um deles), às paisagens verdes… Eu como sempre preferi viagens mais bucólicas, adorei tudo. No entanto, penso que o que mais me surpreendeu foi os jovens da nossa geração: extremamente cultos e proactivos, com vontade de ajudar e fazer a diferença. Foi uma grande lição.

Quais foram os teus maiores desafios?

R: Primeiro que tudo, eu nunca na vida me imaginei como professor do que quer que fosse, muito menos de crianças. O facto de me ter candidatado a esta oportunidade na Roménia foi um pouco inesperado.

A verdade é que assim que dei a minha primeira aula, tudo correu bem. Os meus “miúdos” tinham entre 12 e 13 anos, e a turma tinha cerca de 15 alunos. Rapidamente percebi que, mais do que ensinar Inglês, eles estavam interessados em ouvir sobre Portugal e outras culturas. Após algumas aulas, já estava a ensinar a História de Portugal, alguma geografia e até português! Ensinei-lhes ainda jogos como a cabra-cega e macaquinho do chinês. Em troca, aprendi algum Romeno (confesso que me feriu um pouco o orgulho quando percebi que eles aprendiam Português muito mais rápido do que eu conseguia aprender Romeno…) e a cultura do país deles.

Para finalizar, fizemos uma Global Village – algo que caracteriza as oportunidades na AIESEC. Os formatos podem variar ligeiramente de país para país, mas essencialmente é um dia onde cada voluntário prepara um espaço com elementos característicos sobre o seu país de origem. A bancada portuguesa tinha, claro está, arroz doce (sim, porque entretanto tornei-me um mestre na arte de fazer arroz doce), uma bandeira, várias imagens do nosso país e um orgulho inabalável de termos ganho o Euro uns dias antes à França. Para além disso, cada voluntário tinha que criar um momento criativo com a sua turma, e o nosso incluiu desde fado, a uma batalha com os mouros, a dança do malhão-malhão (sim, isto aconteceu!) e futebol. Ficámos em primeiro lugar neste momento artístico, já agora!

O que achas que mudou em ti com esta experiência?

R: Mudou muito o meu sentido de tolerância com outras culturas. Não me considerava intolerante antes, mas sim ignorante. Não sabia qual era o dia-a-dia de pessoas em culturas como a egípcia, a chinesa ou a paquistanesa, e, ao fim de algumas semanas a viver com pessoas desses países, fiquei muito mais aware do mundo em que vivemos e do quão impressionante cada cultura pode ser.

Percebi também que pequenos gestos podem ter um impacto enorme. Ainda hoje falo com os meus alunos. Eu, que pensava que não poderia ensinar nada a ninguém, consegui proporcionar um verão a estas crianças que os fez crescer e desenvolver-se – sendo que também eu cresci com eles.

Que conselhos davas a alguém que estivesse a pensar embarcar numa experiência semelhante?

R: Não tenham medo de arriscar. Façam coisas que a maioria das pessoas não faz. É isso que vos fará crescer e definir como pessoas no futuro. Mais do que “sair da zona de conforto”, é importante “expandir a vossa zona de conforto”. Façam do mundo a vossa casa e estejam abertos a conhecer novas culturas, novos lugares e novas pessoas. Eu tive menos de 15 dias para planear a minha experiência. E tu, qual é a tua desculpa?

Se tivesses de resumir a tua experiência numa palavra qual seria?

R: Não quero usar “única” que é o cliché do costume, por isso, escolho “irrepetível”. São momentos como os que vivi na Roménia que não se voltam a repetir e dos quais guardo memórias fantásticas. Mais do que isso, senti que consegui ter impacto de uma forma como não esperava ter no meu verão. Eu tive menos de 15 dias para planear a minha experiência. E tu, qual é a tua desculpa?

Obrigado Rui foi muito interessante!